as três primeiras páginas de SAPUCAI:

as três primeiras páginas de SAPUCAI:

o índio retira das estacas a pele curtida à sombra de uma moita, do raposão que rastreou e caçou dias atrás/ em cima de um toco a estica e passa a esfregar com pedra arredondada o lado do carnal ao ponto de alisar o couro/ vai cortar a peça, furar as bordas e costurá-las com tiras de tripa/ faz uma aljava nova para suas setas/ trabalha concentrado o artesão, mas olha em torno toda hora/ sente-se inquieto, angustiado, espetado por espíritos maus, escuta como que assobios no mato baixo/ bobagem, está tudo tranquilo, há pouco andou bombeando ao redor/ ele e o seu bando encontram-se no lado oeste do sambaqui ao abrigo da friagem soprante do mar, acampados em ranchos de palha/ fracote o calor do sol, tarde invernal, o qual no entanto ainda alto no céu por sobre a serra/ balança a cabeça e volta ao trabalho/ regressos dos lagões do litoral raso os homens, já ao fogo os espetados peixes, um pote borbulha com raízes, folgam nas esteiras/ mais próximo suas duas boas esposas tagarelam, rindo: bastante marisco e siri cataram pela praia/ a criançada em roda com as conchas brinca que recobrem quase completamente o enorme cômoro/ debaixo de seus pezinhos encolhem-se incontáveis esqueletos de ancestrais, deslembradas camadas de ossos e areia e conchas somente subindo, ai! a cada sol e a cada lua mais e mais…/ empunha o sílex com o propósito de cortar o couro, e será o comprido e grosso rabo acinzentado da raposa um garboso arremate na sua aljava/ novamente a sensação esquisita, um espírito incomodando sua calma, irritando, chamando insistente atenção/ ergue os olhos no instante de ver flecha rasgar uma garganta, outra se crava num peito ao lado/ atroador alarido de inúbias irrompe, um sapucai guerreiro/ de moitas e reentrâncias no terreno saltam os guaranis pintados como leopardos loiros e atacam, loucos de fúria! ruivos de raiva! o arranchamento/ a área cercada/ zunem as flechas, os berros crescem, de longe corre para cá a morte com seus tacapes erguidos

à noite os charruas sentam-se quietos em torno das chamas, nada dizem, as caras fechadas, ao contrário dos mais loquazes guaranis/ olham o fogo com seus pretos parados olhos, indecifráveis/ mascam nacos de tabaco brabo que escurece seus lábios/ homens e mulheres, velhos imóveis, nem insetos nem as crianças conseguem perturbá-los/ apenas pelas tantas lá do fundo de uma garganta vem surdo rumor, chocalhar de seixos, alguém cospe grosso nas brasas e devagar deixa sair uma palavra/ a palavra, única no tempo/ os demais escutam sem resposta sequer/ a mastigação continua, dá impressão que estão todos ruminando o que foi dito, rugas de concentração intensa nas testas/ então por vezes até um riso mui precioso, um assombrado arregalar de olhos, um estremecer de compreensão estarrecida pode que aconteça/ mais adiante algum outro repete o rito gutural e solta o seu som pensado tanto, meditado, carregado de força e direção/ à luz rubra o couro curtido do rosto, os buracos das ventas e a boca-fenda aberta, a vibração ainda no ar, do poeta pampa

nem bem amanhece o dia os homens distribuem-se pelo pajonal, escondem-se nas macegas/ trazem todos a boleadeira menor, a de duas bolas, tiro mais curto e rápido/ os nhandús vêm saindo da reboleira de mato, vultos pernaltas, esguios na névoa fina/ os machos do bando tudo bombeando do alto de seus pescoços, espertos olhos redondos/ os índios entesam-se/ tiram de sobre os ombros os quilapis e desamarram da cintura as boleadeiras/ estão nus, prontos para a corrida/ vincha na testa segura a cabelama/ a sola dos seus pés um casco/ os nhandús aproximam-se estendendo e compondo as penas, despreocupados passeiam, dirigem-se às encostas das coxilhas que logo ao sol estarão expostas/ os sorros deslizam sorrateiros: nu’a mão seguram os tentos, a outra balança as bolas/ vigiam as volteadas do vento, não vá o cheiro fero alertar das emas os vaqueanos/ atenção total/ agora!/ num único instante irrompem no mesmo salto-jaguar e já correndo a toda força/ as boleadeiras giram sobre as cabeças/ a vertigem louca da perseguição/ um frêmito percorre as aves, dispersam-se apavoradas/ passos largos, pescoços esticados, disparam pampa afora espavorindo os quero-queros, gritaria/ entretanto os charruas capazes de alcançar nhandú em pleno campo/ cada qual arremete do seu lado, escolhe sua presa depressa, se emparelha com ela e solta as bolas/ as pedras giram no ar/ os tentos enroscam-se nas pernas-caniços/ raro falhar um lance/ dá cambalhota a caça e tomba deslizando sobre a grama encharcada de orvalho

o coletor um homem de certa idade, robusto, forte, a pele requeimada do sol e do gelo da puna/ jeito seco e direto, simples porém, sempre nobre, educado, um diplomata/ está tomando mate com os arachanes/ com gosto e cuidado chupa no tacuapi de taquara, conhece a arte, até fazer roncar a cuia/ passa-a para o índio que serve, este de cócoras ao fogo de chão, e dirige-se aos amigos: “eu levaria um pouco desta erva para Cusco”/ “quanto o senhor quiser e puder carregar”/ além de entenderem-se na língua gestual um linguará deslinda qualquer dúvida/ linda a chegada inca esta manhã, já havia alertado os arachanes um chasque/ no descampado, lá no horizonte de corte afiado olhos vaqueanos enxergaram pontinhos escuros que rapidamente cresciam:

as três primeiras páginas de ESCRITURA:

as três primeiras páginas de ESCRITURA:

atravessa o campinho das peladas, grama rala, goleiras de pau, até um boteco na esquina e o fim da vila/ o areião da ruela grosso sob as solas/ adiante a estrada alongando-se entre pastos e campos, roças, chácaras/ seus passos batem bem, seus sapatos meio por si que os olhos pela várzea e os morros soltam-se…/ o céu em poças, pontilhão no riacho, segue e ei-la, a uns cem metros, lá: a bifurcação

casebre caiado bem no meio dos dois rumos da estrada/ está no seu quintal a senhora ao varal dependurando roupa/ indagada, pára o que fazia e sai, as mãos no avental ela enxugando, pelo portão/ “olha” aponta “estás a ver aqueles eucaliptos, pois não? a trilha por ali e o senhor só tem que ir em frente”/ “obrigado”/ “disponha”/ volta à casa rés-de-rua a prestativa da via prática

manhã a meio/ nestas sombras de folhagens algum frescor, o sol saindo das nuvens/ passou já os eucaliptos tão balsâmicos e sobe pela trilha em degraus, árdua/ tem resvalos de cascos nas barrocas, também partes pedreiras/ o andarilho a suar e destrajando sua jaqueta apressa-se o que pode, um fole o fôlego, ao sentir fino odor nas auras do ar, olor flor de verão… a vasta paisagem

da rocha à beira tira seu boné e expõe-lhe, ao vento enxuto, a calva o escriba/ com gosto volta o rosto para o céu tal como sempre quis um dia morrer: de pé em algum caminho/ ao se virar depara-se c’um touro todo branco à borda do barranco, seu maciço porte de encontro ao azul, as grandes guampas/ e no alto o touro maior escarva, o sol, e berra seu calor, sua luz pansêmem

o coração batendo no seu peito, ainda ardente/ anda/ a trilha erodida, água escoando, se equilibra por sobre ásperos seixos e pedregulhos/ devagar como à idade convém e à compleição, mas devagar e sempre, ele se adianta por entre um capoeirão/ respira fundo/ importa-lhe que está afinal na ativa: a mochilinha às costas, um bastão, é como tudo começar de novo!

pela frente um brejal, o pula-pula de pedra em pedra e um mato entrelaçado, entrevado/ aí transpõe co’a maior cautela pinguela/ chega a achar: “eu me perdi”/ pode, que um pouco atrás houve ali ponto onde o caminho certo dividiu-se, u’a picada partia para a esquerda, ele porém seguiu esta senda mais aberta/ mas logo avista, alívio! sobre as copas num mastro de bambu a bandeira branca

o Bandeira da Paz remoto sítio onde agora Han Shan morando está, o velho companheiro da Escritura/ o escriba, um riso em lábios, brilho esperto no olhar adiante-adiante, premedita fazer uma surpresa, dar um susto no amigo antigo, “êh” trama: “sacudí-lo no retiro”/ se chega e afasta galhos, ver a casa e o terreiro com o mastro, quando um: “EI!” lhe toa às costas/ quase morre

não senil o velho Han, pelo contrário, magro e teso, parece moço lépido de corpo, claro o rosto de riso amplo/ talvez devido às práticas ascéticas/ “você também não está mal, de cara ótima, corada”/ “a caminhada para cá, ufa! que me esquentou/ mas a propósito, que moquifo este aqui onde vieste enfiar-te?!”/ “é p’ra só gente tipo assim você poder chegar”/ frontais, riem e se abraçam

ao sair da mata já, sem intervalo abre-se o terreirão à do sol quentura onde pombinhas ciscam/ late um cão e rindo vem co’o rabo/ ao fundo o rancho de pau a pique e de barro, palha a telha/ aos lados vê-se um forno de assar pão desmantelado, a placa solar, mínima horta, além bananal, em volta morros/ e na ramada baixa no frontspício da choupana a cordial sombra anfitriã

a ninfa que lhes serve o chá, lindíssima aliás, olhos estrábicos, estranhos, de um verde mais profundo que o da pele, termina de os seus copos escaldar, pede licença e sai/ o perfume fica ainda, mais um encanto/ eles sentados sob a ramada e têm a sua fronteira vista a bandeira, u’a brisa a balançando/ na pontinha dos lábios o chá de ervas/ “e aí?” o chinês fala ao escriba: “você vem…”

“eu vim porque estou agora em situação desesperada e tu, irmão, tu somente podes me ajudar”/ “claro, claro, mas no quê?”/ “basta que fique aqui contigo, me escondas por um tempo curto, apenas até elas me deixarem de buscar”/ “elas?”/ “as sondas! que da psipolícia”/ “sondas?”/ “sim… por favor… aqueles monstros…” treme a voz dele velho, pobre e só: “pois fugi do asilo onde me internaram”